Sabe qual é a diferença entre fantasia e realidade?
- Nenhuma. Pois a realidade é uma fantasia que nós mesmos criamos.
(Sr. Arcano)

O morcego na lama

01 Março, 2012



―A Consciência Humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, à noite, ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto!

(Augusto dos Anjos)  






Certa noite, um grupo de garotos brincava num parque próximo a uma plantação de bananeiras. A brincadeira consistia em  ficar  balançando,  na  posição  vertical,  um  pedaço  grande  de
bambu, de forma que pudesse ser ouvido o som produzido pelo objeto,  semelhante  a  um  uivo,  ou  mesmo  o  som  do  vento assobiando.  Dessa  forma,  eles  atraíam  os  morcegos  que  toda
noite voavam em volta das bananeiras à procura de alimento.

Quando  os  morcegos  passavam  próximos  ao  bambu, que  girava  bastante  veloz,  levavam  uma  pancada  tão  forte  que caíam a vários metros de distância, vítimas de uma queda fatal.
Um desses morcegos teve um azar maior ainda de cair no meio de uma grande poça de lama.
Ficou todo soterrado de lama, com exceção da cabeça, que ficou virada para cima, olhando a lua e o céu estrelado.


Suas asas cobertas de lama ficaram tão pesadas que seu esforço em erguê-las era inútil. A lama, para o morcego, parecia argila.  E  em  sua  aparente  ignorância  de  não  entender  o  que
estava acontecendo, sua cabeça girava com as estrelas, tamanho foi o impacto do bambu (na cabeça!) que o deixou mais próximo dos astros.

O  morcego  queria  dizer  aos  garotos  que  aquela ignorância  humana  tinha  muito  o  que  aprender  com  a  filosofia dos mamíferos voadores hematófagos.

Ele  queria  dizer  que  sua  capacidade  em  guiar-se  no escuro;  em  sobreviver;  em  se  alimentar;  em  voar  em  silêncio; em  viver  em  grupos;  tudo  isso  tinha  uma  complexidade
científica de difícil entendimento para a humanidade.

Além  disso,  toda  a  sua  pele;  toda  a  sua  carne;  todo  o seu sangue; todos os seus ossos; todos os seus átomos; tudo isso era  relativo.  O  que  o  morcego  tinha  o  próprio  homem  também
herdou das origens!

O morcego queria explicar tudo isso aos homens, mas ele  vivia  num  mundo  onde  seu  único  diálogo  era  o  silêncio  e  a escuridão.

De  repente,  o  morcego  viu-se  rodeado  de  átomos arrumados  e  organizados  de  forma  diferente  da  sua.  Eram  os mesmos  átomos  que  ele,  com  sua  cabeça  levantada,  via  nas estrelas e na lua, mas não tão longe nem tão complexos.

Esses átomos estavam ao seu redor, cobrindo seu corpo putrefato,  devorando  sua  cabeça.  Eram  vermes  que  vinham  da lama  para  devorá-lo.  E  essa  lama  cheia  de  podridão  e  vermes parecia  uma  massa  viva,  parecia  um  vômito  que  ganhou consistência; parecia a origem do mundo! E em vão o morcego tentava se levantar. Afundava cada vez mais em seu malogro. A noite passava e o  morcego continuava afundando, olhando para as  estrelas  e  tendo  seu  corpo  putrefato  sendo  puxado  cada  vez mais para baixo pelos vermes, pela lama viva!

O crepúsculo se aproximava. O morcego ia ver o sol! E para  aquele  a  quem  chamam  de  Deus  o  morcego  queria  gritar mil blasfêmias.

O  sol,  a  lama,  os  vermes,  o  bambu,  os  garotos;  tudo isso  para  o  morcego  era  Deus.  E  em  tudo  isso  estava  Deus, comendo  suas  entranhas,  misturando-se  com  o  seu  sangue  e fazendo parte de sua decrepitude.

O  morcego  queria  dizer  tudo  isso  aos  homens,  queria dizer que não acreditava no Deus deles, que existia um maldito Deus maior, um maldito nada que preenchia com átomos o seu próprio vazio.

O sol desponta no horizonte. O morcego quer gritar todo o seu ódio para com Deus e a humanidade. Ele quer provar que também pode ter cérebro e que a razão sofre contínuas metamorfoses.

Já é meio-dia. O morcego percebe que vai morrer. Mas também  percebe  que  a  morte  não  existe,  que  tudo  apenas  se transforma.

Como o morcego queria que o sol queimasse logo sua cabeça cheia de vermes! Queimando os vampiros da existência, sua liberdade é garantida no fogo de seu ódio. E percebendo que vai  afundar  de  vez,  num  último  adeus  ao  mundo,  o  morcego queria gritar. Mas ele vivia num mundo onde seu único diálogo era o silêncio e a escuridão.

O morcego afunda. Sorumbático. Morre...

O morcego... O morcego...

A  alma  do  morcego  agora  voa  sobre  a  humanidade.

Testemunhando  um  mundo  de  monstros,  o  morcego  vê  a humanidade banhada no sangue dos sofrimentos. Tudo ao redor é alimento. Tudo ao redor é a alma da natureza manipulando os homens  num  caminho  escabroso.  Tudo  ao  redor  é  nada.  E  a alma  do  morcego  percebe  que  Deus  não  existe,  que  nada  é sagrado.  O  mundo  está  vivo  e  parece  uma  lama,  que  se transforma.

A alma do morcego vê que as criações  não passam de transformações.  Tudo  já  existia  numa  química  assombrosa;  as idéias  já  conspiravam  numa  matemática  oculta;  os  sentimentos já se expressavam nas imagens das almas dos organismos!

E  vendo  que  a  realidade  podia  ser  modificada,  a  alma do morcego idealizou sua fantasia:
É dia. A alma do morcego – imensa! – ganha forma no entenebrecimento da nódoa de sua matéria.

Taciturno,  o  morcego  voa  sobre  a  humanidade.  E  sua sombra,  por  onde  passa,  vai  deixando  um  rastro  de  morte  e desolação.  E  desse  rastro  vai  se  formando  uma  grande  lama, uma  grande  gosma,  uma  grande  massa  misturada  com  o  fel  da humanidade.  E  dessa  lama,  dessa  gosma,  dessa  massa,  o morcego manipula sua ressurreição...

...

Comentários Comentários:

Postar um comentário

      

Minha foto
O ano é 2010. Entre os literatos circula a notícia de que um jovem, usando o pseudônimo Sr. Arcano, tem seus textos descobertos e publicados por uma editora que o descobriu por acaso depois de analisar um livro estranho chamado Os contos proibidos do Sr. Arcano, perdido entre várias obras que aguardavam publicação.
Os contos do jovem, escritos desde sua adolescência, são carregados de sentimentos sombrios e visões obscuras. E durante um bom tempo ele ficou conhecido como o soturno Sr. Arcano.
O jovem escritor aparecia em lançamentos muito furtivamente, e seu desaparecimento foi tão rápido quanto o seu surgimento. Há quem diga que o jovem não conseguia segurar por muito tempo sua máscara de pessoa normal e sorridente, retirando-se de volta para o seu esconderijo misterioso.
Descobriu-se que depois de certo tempo a loucura por trás de sua imaginação o consumiu de forma tão avassaladora, que quem o olhava percebia que mesmo com os olhos abertos ele sonhava, e o que era mais assustador: trabalhava em seus sonhos como se estivesse criando vida em seu mundo sombrio de ideias.


 * * *

Defini-lo de forma pessoal seria limitá-lo como sendo um soturno. Indivíduo que, numa alquimia da dor, extrai da realidade ao seu redor sua essência sombria, invisível para os indiferentes que preferem ignorar o Inferno em que vivem. Por outro lado, tal definição não é rígida em suas obras, mesclando fantasia e realidade em descrições surreais diante de acontecimentos mundanos.

Em seus poemas prefere os versos metrificados e rimados. Raras vezes adotou os versos livres, por lhe trazerem lembranças de um Modernismo assassino e barulhento, que interrompeu de forma drástica a essência do Simbolismo, este por sua vez lhe trazendo agradáveis momentos de silêncio e magia em seus estudos e leituras. Mas não é um simbolista, muito menos romântico ou modernista. Seu estilo ainda está para ser descoberto, e até que o classifiquem já estará morto, e este perfil biográfico será o que restou de sua tentativa (insana?) de tentar classificar a si mesmo.

Fez o curso secundário em um bairro chamado Ilha do Governador, já manifestando interesse por autores e obras obscuras. Porém, por uma questão econômica, não seguiu os estudos na área literária ou filosófica, preferindo formar-se em computação (2009), e continuar sua busca por novos conhecimentos de forma descompromissada, tanto na área tecnológica quanto na espiritual, filosófica e literária.

Em suas obras procura expressar a dor, a treva e o terror. Muitas vezes com traços de loucura, fruto de seus delírios devaneados em sua solidão. E até a conclusão desta auto-biografia (maio de 2010) não se preocupou em ser julgado louco. Prosseguiu seu caminho conversando com os mortos e com as sombras que o rodeiam...

* * *

Sr. Arcano é o pseudônimo do escritor e poeta Alexandre Souza. Suas obras classificam-se em gêneros como: terror, fantasia e mistério. Nascido em 1 de setembro de 1980, é brasileiro e um incansável viajante à procura de novos conhecimentos e experiências.

® Todos os textos do autor são registrados antes de ser publicados. Respeite o direito autoral.

Visitantes online:

 

Sr. Arcano © Blog oficial do autor

©