Sabe qual é a diferença entre fantasia e realidade?
- Nenhuma. Pois a realidade é uma fantasia que nós mesmos criamos.
(Sr. Arcano)

Sara

19 Janeiro, 2011


Sobre uma assombração vou contar uma história
De meu trágico amor tão fatal quanto triste,
Que feriu e ficou sangrando na memória
De uma horrível dor que em meu coração persiste...

Certa vez, meu angélico e sublime amor,
No auge da loucura, resolveu desistir
De sentir em seu pálido corpo o calor,
Minha loura bela desistiu de existir.

Apertando vigorosamente uma faca
Que enterrou-se no fundo de seu ventre frágil.
E para fugir dessa dor que nada aplaca
Fiz seu epitáfio de forma simples e ágil.

No epitáfio que escrevi não muito dizia
Além do fato de que ela foi muito linda,
"Sua beleza todas as manhãs renascia
Do mundo dos sonhos de uma nascente infinda".

E escrevi, sozinho, esse meu soturno adeus
Na capela onde estava o cadáver de Sara.
Hoje, muitos sabem que os escritos são meus,
Mas a lembrança de seu rosto ficou rara...

E ao tentar, em meu desespero, relembrar,
Totalmente louco fui ao túmulo dela.
Movido pelo amor consegui descerrar
O sombrio caixão de minha amada donzela.

E ao rever minha adorável e eterna amada
Com seu ventre perfurado e o corpo estragando;
Uma inocente e sensível vida acabada;
Meu amor que o tempo estava desintegrando;

Fui consumido por um desejo macabro
Que abraçou meu espírito com tentação:
Sob a fraca luz de um medieval candelabro
Deitei-me ao lado de seu cadáver no chão.

Ao provar, tão voraz, do fúnebre pecado
Que no ato de loucura um necrófilo faz,
Estranhamente vi que o meu simples passado
Teve em nosso escasso tempo um gosto fugaz...

E ao procurar de qualquer jeito resgatar
Uma alegre e esplendorosa vida perdida,
Irredutível, resolvi não mais pensar
Na razão que nos leva à sensatez da vida.

Devolvi minha Sara para sempre amada
Ao seu túmulo frio, quando tive um delírio:
De olhar inquisidor, uma imagem sagrada
Desenvolveu profundamente o meu martírio.

E com ódio eu disse: "Se o seu Deus não aceita
Que este valiosíssimo desejo amoroso
Que em sonhos declarados seduz e deleita,
Traga minha doce e amada Sara ao meu gozo,

Então sou imperturbavelmente profano,
Como um demônio pecando em subterfúgio.
Pois a Sara que foi para o celeste plano
Eternamente será meu deus de refúgio".

E triste, pensei nesse refúgio sem vida
Que em minha despedida ficou para trás.
Deixei a capela em minha triste partida
Em direção aos fúteis caminhos mortais.

Mas, talvez, por ter decidido caminhar
Para um fado longe da minha amada morta,
Uma voz trazida na brisa tumular
Rasga a noite, e o sepulcral silêncio ela corta.

Era a doce voz de minha eterna donzela,
Minha Sara, do mundo dos mortos, falava.
Foi bom lembrar de como sua voz era bela,
Voz que nessa noite o cemitério encantava.

Como um feitiço de melodia me chamava,
Desejando ter ao seu lado este meu ser.
E eu, com dificuldade e sem paz caminhava,
Indo embora para mais em prantos sofrer.

Sara não me deixava partir, e sofria
Entre longos gritos de sua plangente dor.
Lembro, com sofrimento, que ela me pedia:
"Por favor, não se vá. Fique comigo, amor".

Que horror... sonhador e pungente campo-santo
De uma noite macabra, tão louca e assombrada!
Envolvendo e embalando meu eterno pranto
Pela morta amada, minha Sara adorada.

"Por favor, não se vá. Fique comigo, amor".
Ouvir essa frase torturante era atroz.
Comecei a gritar minha dor com furor,
Libertando a loucura de uma voz feroz:

-- SARAAA!!!

De tanto sofrer pela minha morta amada
Não pude conter meus desesperados prantos.
Ajoelhei-me ao peso de ter Sara velada
Durante anos por imagens de anjos e santos.

Sem querer suportar, decidi me matar,
Pôr um fim em meus viventes anos de dor,
Para o espírito de minha Sara encontrar
E recomeçar nosso interrompido amor.

Levantei aquela mesma faca insensata
Contra a dor lancinante dentro do meu peito,
Dor esta que, de forma destrutiva, mata
Com seu golpe explosivo e cruelmente perfeito.

Numa fome de morrer estranha e voraz,
Com força, fui trazendo a faca ao coração.
De repente uma moça, que surge por trás,
Segurou com muita firmeza minha mão.

Essa moça de mão transparente era Sara,
Ela impediu, subitamente, minha morte.
Seu fantasma, inadvertidamente me pára
Rapidamente, como num golpe de sorte.

No auge das emoções ela pede implorando
Para que toda essa nossa dor tenha um fim,
E ela também pede, dessa vez ordenando:
"Por favor, meu amor, não se mate por mim".

Uma grande e terrível dor que jamais sara
Foi milagrosamente sarada por ela.
Somente minha Sara que entende e repara
Nessa ambígua dor de morte e amor, triste e bela.

E eu, sozinho, não posso decidir morrer
Se ela diz em meu espírito que eu não devo,
(Ela pode, para todo o sempre viver
Neste imortais versos que em saudade escrevo).

(Sr. Arcano)


OBS.: Este poema recebeu o certificado de Destaque Literário, em abril de 2002, pela comissão julgadora do VI Concurso Literário "A Palavra do Século XXI", realizado em Cruz Alta - RS. Na época, Sr. Arcano ainda assinava suas obras como Alexandre Souza (seu verdadeiro nome). Para visualizar o certificado clique aqui

Comentários 3 Comentários:

Lady Angellus disse...

O que dizer... Palavras faltam para expressar o quanto mágica é seu talento em moldar as palavras ao seu bel prazer e nos deleitar com poemas, contos e crônicas muito bem elaboradas... Te desejo todo sucesso do universo, porque o mundo é pouco para o Sr. Arcano.

19 de janeiro de 2011 11:29
Leka disse...

Belíssimo poema!
Transmite todo a angústia e sofrimente de alguém que perdeu um amor e não consegue viver mais sem ele...
bjus!
http://guerradosmundosleka.blogspot.com/

19 de janeiro de 2011 11:42
incontessa disse...

Nossa...muito bom...profundo!
Parabéns pelo talento em que tem de se expressar através da escrita.Você consegue nos fazer sentir o poema.
Perfeito! Admirável!
=*

20 de janeiro de 2011 05:03

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Minha foto
O ano é 2010. Entre os literatos circula a notícia de que um jovem, usando o pseudônimo Sr. Arcano, tem seus textos descobertos e publicados por uma editora que o descobriu por acaso depois de analisar um livro estranho chamado Os contos proibidos do Sr. Arcano, perdido entre várias obras que aguardavam publicação.
Os contos do jovem, escritos desde sua adolescência, são carregados de sentimentos sombrios e visões obscuras. E durante um bom tempo ele ficou conhecido como o soturno Sr. Arcano.
O jovem escritor aparecia em lançamentos muito furtivamente, e seu desaparecimento foi tão rápido quanto o seu surgimento. Há quem diga que o jovem não conseguia segurar por muito tempo sua máscara de pessoa normal e sorridente, retirando-se de volta para o seu esconderijo misterioso.
Descobriu-se que depois de certo tempo a loucura por trás de sua imaginação o consumiu de forma tão avassaladora, que quem o olhava percebia que mesmo com os olhos abertos ele sonhava, e o que era mais assustador: trabalhava em seus sonhos como se estivesse criando vida em seu mundo sombrio de ideias.


 * * *

Defini-lo de forma pessoal seria limitá-lo como sendo um soturno. Indivíduo que, numa alquimia da dor, extrai da realidade ao seu redor sua essência sombria, invisível para os indiferentes que preferem ignorar o Inferno em que vivem. Por outro lado, tal definição não é rígida em suas obras, mesclando fantasia e realidade em descrições surreais diante de acontecimentos mundanos.

Em seus poemas prefere os versos metrificados e rimados. Raras vezes adotou os versos livres, por lhe trazerem lembranças de um Modernismo assassino e barulhento, que interrompeu de forma drástica a essência do Simbolismo, este por sua vez lhe trazendo agradáveis momentos de silêncio e magia em seus estudos e leituras. Mas não é um simbolista, muito menos romântico ou modernista. Seu estilo ainda está para ser descoberto, e até que o classifiquem já estará morto, e este perfil biográfico será o que restou de sua tentativa (insana?) de tentar classificar a si mesmo.

Fez o curso secundário em um bairro chamado Ilha do Governador, já manifestando interesse por autores e obras obscuras. Porém, por uma questão econômica, não seguiu os estudos na área literária ou filosófica, preferindo formar-se em computação (2009), e continuar sua busca por novos conhecimentos de forma descompromissada, tanto na área tecnológica quanto na espiritual, filosófica e literária.

Em suas obras procura expressar a dor, a treva e o terror. Muitas vezes com traços de loucura, fruto de seus delírios devaneados em sua solidão. E até a conclusão desta auto-biografia (maio de 2010) não se preocupou em ser julgado louco. Prosseguiu seu caminho conversando com os mortos e com as sombras que o rodeiam...

* * *

Sr. Arcano é o pseudônimo do escritor e poeta Alexandre Souza. Suas obras classificam-se em gêneros como: terror, fantasia e mistério. Nascido em 1 de setembro de 1980, é brasileiro e um incansável viajante à procura de novos conhecimentos e experiências.

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