Sabe qual é a diferença entre fantasia e realidade?
- Nenhuma. Pois a realidade é uma fantasia que nós mesmos criamos.
(Sr. Arcano)

Os góticos voltaram!

07 Dezembro, 2010

O organizador M. D. Amado conseguiu dar início a algo que estava faltando no cenário de antologias brasileiras: através de seu site (Estronho), e com o apoio da editora Literata, ele realizou um concurso onde foram escolhidos diversos autores para a composição de uma antologia de poesia gótica. Além disso, convidou autores conhecidos nesse meio que pudessem participar com poemas inéditos, feitos especialmente para a obra. Então nasceu "À sombra do corvo", um livro que mostra em nossa literatura contemporânea os autores sombrios de nosso país.

Com prefácio de Alessandro Reiffer (autor de "Contos do crepúsculo e do absurdo" e "Poemas do fim e do princípio"), essa obra-prima tornou-se um dos livros mais desejados entre os amantes da tradição gótica no Brasil.

Cada autor dessa antologia possui seu talento especial dentro da poesia, e vemos através de suas biografias que todos possuem uma relação íntima com o tema, trazendo ao público o que muitos pensavam que não existia nos dias de hoje.

Comentarei sobre cada trabalho publicado, mas antes, obviamente, falarei do texto que criei para fazer parte dessa obra. Intitulado "As irmãs da misericórdia", meu poema foi inspirado na banda "The sisters of mercy" (tradução do título).

Depois de ler uma entrevista com o vocalista Andrew Eldritch, dessa que é uma de minhas bandas preferidas, tradicional dos anos 80, não pude deixar de notar sua resposta quando o repórter perguntou o porquê do nome da banda. Andrew respondeu que "As irmãs da misericórdia" era o melhor nome que ele podia dar à sua banda de heavy metal. Eu, particularmente, não sei o que ele via de heavy metal em sua banda, afinal, a sonoridade era e sempre foi de um puro rock dos anos 80. Mas, o que me chamou mais a atenção foi sua explicação sobre a inspiração para o nome, dizendo que ele queria unir dois extremos da realidade: a prostituta e a freira. Daí o nome "As irmãs da misericórdia".

Gostei da ideia e tentei expressar isso na poesia, publicando na antologia os versos que escrevi ao som de "Floodland", meu álbum preferido dessa banda, e na minha opinião o melhor.

A construção que utilizei para a métrica foi o verso alexandrino em todas as estrofes, com rimas em AABBCDDC, pois os versos livres do Modernismo não me agradam, apesar de já ter criado muitos poemas livres.

Mas nem só de música vivem os góticos, e nota-se claramente no livro uma inspiração em autores de renome que fizeram história na literatura através de suas obras sombrias. Percebemos através do título da antologia que a principal inspiração projeta-se na sombra de Edgar Allan Poe (autor do poema "O corvo"). Tanto é que os autores participantes são chamados pela organização da obra de "corvos".

Sobre a importância literária dessa publicação, eu diria que se mantém entre dois aspectos: o primeiro, sem dúvida, é o fato de que na literatura nada expressa melhor o que vemos e o que sentimos em relação à realidade ao nosso redor do que a poesia; segundo, se a poesia está morta nos dias de hoje, este livro exemplifica o perfil dos autores ligados ao submundo da literatura -- a poesia soturna das ruas noturnas e seu caráter sujo, marginalizada por uma sociedade onde os livros são produtos de consumo, e a arte literária deixa de ser arte para ser uma peça que complete o quebra-cabeça da moda e suas indústrias.

Sendo assim, o corvo representado pelos autores projeta sua sombra sobre todo o artificialismo de nossa época, trazendo consigo a essência sombria do que vivemos atualmente, e eternizando sua arte literária, papel que a poesia interpreta de forma impecável.

Sob outro ponto de vista, e não menos contextual, os autores também expressam suas capacidades criativas em torno do tema da antologia, de forma que tudo o que apresentam são experiências de suas viagens ao mundo das sombras. Não possuindo uma ligação concisa com os aspectos determinantes e influenciáveis de uma época, sendo alguns apenas uma demonstração pessoal, fruto de sentimentos íntimos.

O prefácio de Alessandro Reiffer é o argumento perfeito do que foi gerado. Transcrevo a seguir um trecho que melhor representa a proposta da obra: "Pensam alguns filósofos, alertam alguns artistas que chegamos ao 'fim da história'. Teria o pós-modernismo acabado, ou estaria agora em agonia. E que nada mais seria novo, não haveria mais novos movimentos, novas ideologias ou filosofias, mas que todas as coisas que foram vivenciadas pela humanidade em determinada época convivem agora em um caos universal sem uma linha pré-estabelecida, sem um caminho a ser seguido, como se nada mais fizesse sentido.".

 O livro, em acabamento perfeito, possui várias páginas pretas e escuras, feito com um capricho perfeitamente adaptável ao seu conteúdo.



Falarei então da primeira autora, Nine.
Suas prosas são uma negação da realidade. fechando-se em seu mundo sombrio, ela glorifica a morte e cospe suas palavras com sentimentos tenebrosos de imagens que ela mesma cultiva;

A segunda autora, Luciana Fátima, nos brinda com rimas encantadoras em seu poema "Estige". Fazendo alusão à reencarnação e à eterna busca de um ser por uma entidade noturna. Um poema que lembra "O corvo", de Edgar Allan Poe, através de suas rimas finais "mais uma vez", "última vez". Uma homenagem bem elaborada que demonstra o talento criativo da poetisa;

O autor Marius Arthorius com seu poema "Minha morte" lembra o estilo grindcore, com suas tripas e sangue, justificando a morte e o argumento de que todos somos iguais perante o processo de putrefação;

O autor do prefácio, Alessandro Reiffer, faz sua homenagem à noite como entidade vencedora absoluta de nosso cansaço oriundo do caos em que vivemos. Finalizando com um poema sobre um pequeno significado poético ao corvo. Sua passagem na obra mais uma vez demonstra seu estilo único sobre sua crença "no fim". Trabalhei há algum tempo em duas matérias que ajudam a compreender melhor o autor. A primeira, sobre seu livro de contos apocalípticos, e a segunda com uma pequena entrevista disponível no antigo site da antologia (infelizmente não consegui achar o link, mas a publicarei no meu blog em ocasião oportuna);

Sobre a quinta autora, Carolina Mancini, seus dois poemas são canções românticas que agradam por seu ritmo e suavidade. Criativa e detalhista, ela sabe cativar os leitores;

Dimitry Uziel usa recursos de construção mecânica, ou seja, sua poesia flui automaticamente em torno de uma ideia, e ele parece não ter freios para o seu talento com os versos livres;

A autora Cristina Rodriguez surpreende com seu poema "A valsa do predador". Dividido em duas partes, é uma expressão fascinante de morte e renascimento, com pitadas de uma criatividade rara, dessas que só encontramos em grandes escritores;

M. D. Amado, organizador da obra, também participa com poemas diversos dos quais destaco "Antes menina". Seu estilo simples e descontraído de escrever revela um autor de boas influências em temas sombrios;

Encontramos em outra autora a poética dos pesadelos. Tânia Souza expressa loucuras, sombras, terror e medo. Seu caldeirão de caos e fantasia fervilha em frases que, como ela mesma diz, são "descaminhos letrais";

Suzy M. Hekamiah traz em seu poema uma profundidade gélida, revelando um desejo quase imperceptível no mundo frio de seu poema "Rosas do ártico". Aqui há a busca pela relação perfeita, fora dos domínios caóticos, e por isso mesmo errados, do conturbado modo vazio de se viver;

Já a autora Glaucia Piazzi expõe todo o seu ódio através do seu poema "Desejo macabro". Um requinte de crueldade justificando seus sentimentos sombrios;

O autor português Miguel Raimundo entrou bem, abrindo sua participação com o poema "Um corvo na sombra". Seus poemas, pouco sombrios, são bem articulados e enriqueceram a obra com seu aspecto lusitano;

Minha amiga enigmática, Raven, optou por explorar significados obscuros através de seu poema "Um corpete para Lilith". Muito bem escrito;

Emília Ract, insana e sensual, expressou-se com poemas que parecem defini-la, mesmo com pitadas de fantasia;

Já o autor Adolph Kliemann explora sua criatividade sombria, faz das ideias obras novas dentro de sua própria obra poética. Esbanja talento em todos os versos publicados. Curiosamente, um de seus poemas também se chama "Estige", mesmo título usado por Luciana Fátima;

O autor Rafael de Andrade empolga com seu poema "O buraco". Um texto simples mas muito criativo, divertindo de forma sombria o leitor com suas metáforas;

Gisele G. Garcia parece dar vida à sua "Virgo Mortificato". Sagrada, imaculada, mágica, e... sombria!;

A última autora, Dione Mara Souto da Rosa, em seu poema "A rosa do vampiro", é romântica, mágica, gótica. Seu texto tem os elementos perfeitos de uma obra de requinte e qualidade.

* * *

O organizador M. D. Amado cedeu-me uma pequena entrevista. Confiram:

Como é organizar uma antologia poética, principalmente sendo sombria?


-- Foi uma experiência nova e muito interessante. Um aprendizado eu diria. Talvez se não fosse de poesias sombrias, eu nem teria arriscado. As sombrias me encantam e só por isso encarei o desafio.
E como não sou nada técnico, a técnica das escritas não tiveram um peso grande no critério de seleção. Sentimentos, escrita e claro o objetivo da antologia é que foram decisivos.


Foi muito difícil achar os autores que seriam convidados especiais?

-- Na verdade não. Já tinha contato com a maioria e tinha lido uma ou outra coisa de outros poucos. Alguns eram da turma dos contos e eu desafiei para escrever poesias e deu muito certo.


Muitos autores ficaram de fora?

-- A procura pela antologia não foi tão grande quanto a de contos. Isso já era esperado. Mas teve uma boa quantidade de autores de fora. Alguns por não se encaixarem no tema, outros por realmente não terem enviado boas poesias. E também pelo simples fato de não ter mais vagas disponíveis, o que foi uma pena em alguns casos.


Devido ao sucesso da obra, você pensa em realizar, futuramente, um segundo volume?

-- Vamos aguardar um pouco mais para ver como se comportam as vendas. As vendas iniciais foram muito boas, por conta principalmente de autores que querem organizar noites de autógrafos em suas cidades e que irão vender para amigos e familiares. Mas a ideia de se fazer outra antologia existe e inclusive trazendo surpresas agregadas.

* * *

O livro termina com um poema de Alphonsus de Guimaraens, perfeito para fechar a obra. Lembro que esse poema foi uma sugestão minha para o livro, e fico feliz pelo organizador ter atendido ao meu pedido. E é com um trecho dele que finalizo este artigo:

"Dizem-me todos que atirar eu devo
Trevas em fora este agoirento corvo,
Pois dele sangra o desespero torvo
Destes versos que escrevo"



OBS.: Estou disponibilizando o livro aqui no meu blog (frete gratuito). Para adquiri-lo, clique aqui

Comentários 2 Comentários:

M. D. Amado disse...

Excelente post e resenha meu amigo. Agradeço imensamente pelo carinho que teve com a obra.

Quero aproveitar para deixar aqui um registro de um equívoco na diagramação, erro meu. O conto da Luciana Fátima, na verdade se chama "A Última Morte"

Um grande abraço horripilante!

7 de dezembro de 2010 07:56
Rart og Grotesk disse...

esse livro ' a sombra do corvo" deve ser maravilhoso!!!ainda mais que reúnem diversos autores!!
parabéns pelo post!
se quiser, acesse meu blog de arte obscura http://artegrotesca.blogspot.com
bjos

9 de dezembro de 2010 12:02

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O ano é 2010. Entre os literatos circula a notícia de que um jovem, usando o pseudônimo Sr. Arcano, tem seus textos descobertos e publicados por uma editora que o descobriu por acaso depois de analisar um livro estranho chamado Os contos proibidos do Sr. Arcano, perdido entre várias obras que aguardavam publicação.
Os contos do jovem, escritos desde sua adolescência, são carregados de sentimentos sombrios e visões obscuras. E durante um bom tempo ele ficou conhecido como o soturno Sr. Arcano.
O jovem escritor aparecia em lançamentos muito furtivamente, e seu desaparecimento foi tão rápido quanto o seu surgimento. Há quem diga que o jovem não conseguia segurar por muito tempo sua máscara de pessoa normal e sorridente, retirando-se de volta para o seu esconderijo misterioso.
Descobriu-se que depois de certo tempo a loucura por trás de sua imaginação o consumiu de forma tão avassaladora, que quem o olhava percebia que mesmo com os olhos abertos ele sonhava, e o que era mais assustador: trabalhava em seus sonhos como se estivesse criando vida em seu mundo sombrio de ideias.


 * * *

Defini-lo de forma pessoal seria limitá-lo como sendo um soturno. Indivíduo que, numa alquimia da dor, extrai da realidade ao seu redor sua essência sombria, invisível para os indiferentes que preferem ignorar o Inferno em que vivem. Por outro lado, tal definição não é rígida em suas obras, mesclando fantasia e realidade em descrições surreais diante de acontecimentos mundanos.

Em seus poemas prefere os versos metrificados e rimados. Raras vezes adotou os versos livres, por lhe trazerem lembranças de um Modernismo assassino e barulhento, que interrompeu de forma drástica a essência do Simbolismo, este por sua vez lhe trazendo agradáveis momentos de silêncio e magia em seus estudos e leituras. Mas não é um simbolista, muito menos romântico ou modernista. Seu estilo ainda está para ser descoberto, e até que o classifiquem já estará morto, e este perfil biográfico será o que restou de sua tentativa (insana?) de tentar classificar a si mesmo.

Fez o curso secundário em um bairro chamado Ilha do Governador, já manifestando interesse por autores e obras obscuras. Porém, por uma questão econômica, não seguiu os estudos na área literária ou filosófica, preferindo formar-se em computação (2009), e continuar sua busca por novos conhecimentos de forma descompromissada, tanto na área tecnológica quanto na espiritual, filosófica e literária.

Em suas obras procura expressar a dor, a treva e o terror. Muitas vezes com traços de loucura, fruto de seus delírios devaneados em sua solidão. E até a conclusão desta auto-biografia (maio de 2010) não se preocupou em ser julgado louco. Prosseguiu seu caminho conversando com os mortos e com as sombras que o rodeiam...

* * *

Sr. Arcano é o pseudônimo do escritor e poeta Alexandre Souza. Suas obras classificam-se em gêneros como: terror, fantasia e mistério. Nascido em 1 de setembro de 1980, é brasileiro e um incansável viajante à procura de novos conhecimentos e experiências.

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