Sabe qual é a diferença entre fantasia e realidade?
- Nenhuma. Pois a realidade é uma fantasia que nós mesmos criamos.
(Sr. Arcano)

Lúcifer - o primeiro anjo

03 Outubro, 2010


Com um texto de fácil leitura, Lúcifer – o primeiro anjo, ficção do brasileiro Marcelo Hipólito, é um livro interessante e, dependendo da crença de cada um, não deixa de ser também uma fonte instrutiva de conhecimento.
À semelhança de “Paraíso Perdido”, de Milton, mas muito longe de sua perfeição poética e criatividade, o Lúcifer de Marcelo Hipólito também nos convence de sua razão, mostrando que sua versão da história com seu relacionamento com Deus não deixa de ser também verdadeira.
Aqui, Lúcifer é o personagem principal, e começa a interagir na história como Samael, seu verdadeiro nome angélico. E de todos os anjos, Samael, sendo o Primogênito, foi o mais notável, como exemplifica o trecho em que ele trava uma batalha contra Mefistófeles, o lado negro de Deus: “Pois, se algum sacrifício feito em nome do Todo-Poderoso tornou-se digno de lendas, foi aquele de Samael Estrela da Manhã. Nenhuma criatura suportou maiores sofrimentos ou provações do que o Primogênito então”.
Ao contrário das crenças que o apontam como um ser maligno por natureza, Samael na verdade era uma parte luminosa de Deus, e só veio a conhecer a maldade em Mefistófeles, o lado negro de Deus que numa luta pelo direito de existir no universo, acabou por libertar-se de Deus e ameaçar toda a existência de luz.
Samael foi o primeiro anjo a contestar as razões de Deus, pondo-o em guerra com milhares de anjos mais devotos, e unindo-se com seu próprio exército angélico na luta pela liberdade. Tal liberdade foi assunto de blasfêmia perante os anjos mais devotados a Deus, atingindo o ápice quando Samael fez seu pronunciamento revolucionário: “Que a verdade nos libertará. Seremos livres, se assim o desejarmos. Pois as correntes que nos prendem ao Criador existem apenas em nossas mentes. Rompê-las depende unicamente da vontade de cada um de nós. A verdade tão temida por Deus é que o controle que Ele exerce sobre nós é dado por nós mesmos. Se nos tornarmos maduros e sábios o suficiente para perceber isso, deixamos de ser escravos para virarmos mestres de nosso próprio destino. Descobrimos que a Criação é nossa para fazermos dela o que bem quiser. Deus torna-se irrelevante, irmãos. E nós nos tornamos deuses”.
A história prolonga-se desde sua criação até o final dos tempos, onde diga-se de passagem, Marcelo Hipólito soube tão bem conduzir. E vemos a passagem de Adão e Eva pela Terra, planeta tão amado por Lúcifer, motivo pelo qual o fez odiar ferozmente a humanidade por tomar aquilo que para ele era seu, corrompendo Lilith, a primeira mulher de Adão, e transformando-a no pior dos demônios que já existiu.
As partes mais emocionantes do livro são as narrações de Hipólito sobre os diálogos entre os anjos inimigos, principalmente entre Gabriel e Lúcifer, como vemos neste trecho:

“ — No dilúvio, Deus sacrificou meu filho e meu neto, porém, poupou a família de Noé, um varão de Lameque – explicou Gabriel. – Por conseqüência, todo homem que anda sobre a Terra carrega o sangue do Diabo nas veias.
— E isso revolta você – saboreou Lúcifer, com enorme prazer.
— Noé era tenente a Deus, contudo, sabidamente impuro. Eu não compreendo por que Deus escolheu justamente ele como o novo Adão.

Lúcifer suspirou.
— Talvez... – pausou o inimigo antes de continuar. – Pelo que conheço de Nosso Pai, Ele acreditou que Sua criação fosse forte o suficiente para subjugar o Mal dentro de si. Ele deposita grande fé e esperança no Homem. E esse é Seu maior erro.”

Mas a maior revelação de Lúcifer, foi quando ele percebeu que jamais poderia vencer o Criador, já que sendo o Criador, todo o resto não passava de um imenso cenário de personagens com destinos já traçados. E isso foi percebido quando Jesus, filho de Deus, demonstrou possuir uma capacidade pertencente apenas a Deus: a adivinhação. Prevendo acontecimentos futuros, como se estes já tivessem sido escritos por Deus. E o mais revelador era que, apesar de todas as reviravoltas, tudo acontecia como o previsto, mesmo com Lúcifer tentando mudar o roteiro da história da Humanidade. Em sua conversa com Jesus, ele apenas reflete: “... E, se Deus possui tal poder, significa que eu tenho sido manipulado desde a minha criação. Pois Deus não teria outro motivo para fazer-me à Sua perfeição, sabendo que eu me tornaria o Diabo, se Ele não tivesse um plano previamente elaborado para mim”.

O aspecto mais interessante do livro é o fato de que Lúcifer sempre foi o mais poderoso ser de toda a criação. E sozinho, derrotou o lado negro de Deus (Mefistófeles), o que acabou por corrompê-lo na essência do mal através do sangue negro de Mefistófeles que banhava seus ferimentos. Fato que não fica bastante claro, mas que percebemos nas entrelinhas de acordo com a narração.
As partes com mais ação do livro, são, sem dúvida, a batalha entre os anjos. Sendo a mais emocionante o desafio final entre Lúcifer e Gabriel:
“ — O que deseja, Lúcifer Estrela da Manhã? – perguntou Gabriel.
— Você acha que Deus o ama, Gabriel? – insinuou Lúcifer.
— Que tipo de pergunta é essa? – estranhou o Arauto.
— Uma pergunta direta, para uma resposta simples. Um mero “sim” ou “não” basta.
— Deus ama todos os Seus filhos.

Lúcifer sorriu, debochado.
— Pois, se Deus amasse-o, Gabriel, e realmente conhecesse o futuro, jamais o teria enviado a mim, sabendo o que estou para fazer.

Lúcifer sacou sua espada diretamente contra a garganta de Gabriel. Ele decepou o Seraphim de um único golpe. E esse foi o fim de Gabriel, o mais divino anjo da Criação”.

O fim do livro, e de toda a história da criação, é na verdade, uma passagem da existência ao vazio e deste para a existência. Num desfecho sensacional de Hipólito, colocando o leitor num estado de meditação momentânea perante o lugar da humanidade na existência.
O livro foi baseado numa extensa e detalhada pesquisa baseada em descobertas arqueológicas e nos ensinamentos do taoísmo, islamismo, bramanismo, entre outras crenças e filosofias milenares. Mostrando que a lenda de Lúcifer – primeira criatura de Deus e único a compartilhar a perfeição do Pai – é muito mais antiga do que o Judaico-cristianismo e o islamismo; remonta a mitos ancestrais. O delicado equilíbrio entre o Bem e o Mal e a guerra eterna entre seus exércitos encontram-se em inscrições e vestígios arqueológicos de povos há muito desaparecidos, anteriores a babilônios e egípcios. Uma aventura épica e brutal de como e porquê o maior herói de Deus sucumbiu às trevas e resgata as origens de uma história perdida nas brumas do tempo, que desfaz a imagem atual dos anjos – serenos e doces – para guerreiros duros como o aço e implacáveis como a vontade de Deus.
A narração de Hipólito só peca no que diz respeito ao estilo, pois todo o livro parece uma descrição documentada da história do universo, baseada em pesquisas. Sendo raros os momentos de criatividade literária. O que o torna um meio termo entre ficção e narração historiográfica.
Lembrando que Marcelo Hipólito é co-autor de diversos contos de ficção em língua inglesa, publicados nos EUA, Reino Unido e Espanha, dentre os quais se destaca Eternal Grief, indicado para melhor conto de horror nos EUA em 2003 pelo Preditors & Editors Readers’ Poll. Esses contos encontram-se no livro de antologia Eternal Griel, lançado nos EUA em 2005 pela editora Lulu e, em 2003, pela editora Evilbooks. Além disso, Hipólito é diretor de três curtas-metragens de ficção, roteirista de cinema e produtor de teatro.
Hipólito nasceu na cidade de São Paulo, Brasil, e graduou-se em Cinema pela Universidade Federal Fluminense e em Administração pela Universidade do estado do Rio de Janeiro, além de ser pós-graduado em Gestão da Informação e Inteligência Competitiva pela Universidade Estácio de Sá.

Comentários 3 Comentários:

Anônimo disse...

muito interessante aguçou minha curiosidade em ler o livro!

7 de dezembro de 2010 15:45
Anônimo disse...

Uma obra interessante, vou procurar nas livrarias!!!!

1 de março de 2011 09:14
Anônimo disse...

isso não é verdade, pois Gabriel nunca foi morto ¬¬

14 de novembro de 2011 08:05

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O ano é 2010. Entre os literatos circula a notícia de que um jovem, usando o pseudônimo Sr. Arcano, tem seus textos descobertos e publicados por uma editora que o descobriu por acaso depois de analisar um livro estranho chamado Os contos proibidos do Sr. Arcano, perdido entre várias obras que aguardavam publicação.
Os contos do jovem, escritos desde sua adolescência, são carregados de sentimentos sombrios e visões obscuras. E durante um bom tempo ele ficou conhecido como o soturno Sr. Arcano.
O jovem escritor aparecia em lançamentos muito furtivamente, e seu desaparecimento foi tão rápido quanto o seu surgimento. Há quem diga que o jovem não conseguia segurar por muito tempo sua máscara de pessoa normal e sorridente, retirando-se de volta para o seu esconderijo misterioso.
Descobriu-se que depois de certo tempo a loucura por trás de sua imaginação o consumiu de forma tão avassaladora, que quem o olhava percebia que mesmo com os olhos abertos ele sonhava, e o que era mais assustador: trabalhava em seus sonhos como se estivesse criando vida em seu mundo sombrio de ideias.


 * * *

Defini-lo de forma pessoal seria limitá-lo como sendo um soturno. Indivíduo que, numa alquimia da dor, extrai da realidade ao seu redor sua essência sombria, invisível para os indiferentes que preferem ignorar o Inferno em que vivem. Por outro lado, tal definição não é rígida em suas obras, mesclando fantasia e realidade em descrições surreais diante de acontecimentos mundanos.

Em seus poemas prefere os versos metrificados e rimados. Raras vezes adotou os versos livres, por lhe trazerem lembranças de um Modernismo assassino e barulhento, que interrompeu de forma drástica a essência do Simbolismo, este por sua vez lhe trazendo agradáveis momentos de silêncio e magia em seus estudos e leituras. Mas não é um simbolista, muito menos romântico ou modernista. Seu estilo ainda está para ser descoberto, e até que o classifiquem já estará morto, e este perfil biográfico será o que restou de sua tentativa (insana?) de tentar classificar a si mesmo.

Fez o curso secundário em um bairro chamado Ilha do Governador, já manifestando interesse por autores e obras obscuras. Porém, por uma questão econômica, não seguiu os estudos na área literária ou filosófica, preferindo formar-se em computação (2009), e continuar sua busca por novos conhecimentos de forma descompromissada, tanto na área tecnológica quanto na espiritual, filosófica e literária.

Em suas obras procura expressar a dor, a treva e o terror. Muitas vezes com traços de loucura, fruto de seus delírios devaneados em sua solidão. E até a conclusão desta auto-biografia (maio de 2010) não se preocupou em ser julgado louco. Prosseguiu seu caminho conversando com os mortos e com as sombras que o rodeiam...

* * *

Sr. Arcano é o pseudônimo do escritor e poeta Alexandre Souza. Suas obras classificam-se em gêneros como: terror, fantasia e mistério. Nascido em 1 de setembro de 1980, é brasileiro e um incansável viajante à procura de novos conhecimentos e experiências.

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