Sabe qual é a diferença entre fantasia e realidade?
- Nenhuma. Pois a realidade é uma fantasia que nós mesmos criamos.
(Sr. Arcano)
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Nas mãos do coringa, uma coroa manchada de sangue



 PAUS

Vamos jogar, doentes da sociedade!
Não estou na moda, mas o estilo é meu.
Não caio na pilha da falsidade.
Se hoje eu perco, amanhã que rei sou eu?

Ontem sua pobre instrução me arruinou
E hoje comando-lhe com mãos de ferro;
Ontem seu preconceito me atrasou
E hoje estou na frente e além do que eu quero;

Ontem você causou minha falência
E hoje meu reviver causa-lhe espanto;
Ontem fiquei de amor numa carência
E hoje danço, casado com meu pranto;

Ontem comi do pão jogado fora
E hoje como na mesa da riqueza;
Ontem da vida quase fui-me embora
E hoje se morro não tenho certeza;

Ontem fui criminoso e vagabundo
E hoje sou conhecido como um mestre;
Ontem, pobre, sofri castigo imundo
E hoje o respeito de glória me veste.

Vamos dar as cartas, mas jogo sujo.
Sou falso amigo, pois sou trapaceiro.
Quando sou descoberto eu sumo, eu fujo,
Mas no acerto de contas sou traiçoeiro.



ESPADAS

Vamos jogar, doentes da sociedade!
Não estou na moda, mas o estilo é meu.
Não caio na pilha da falsidade.
Se hoje eu perco, amanhã que rei sou eu?

Ontem cumpri suas ordens abusivas
E hoje aproveito minha liberdade;
Ontem minhas horas foram explosivas
E hoje caminho com tranqüilidade;

Ontem sofri muito na escravidão
E hoje piso em meus antigos senhores;
Ontem me espancaram numa prisão
E hoje espanco a lei dos inquisidores;

Ontem pela traição fui derrotado
E hoje venci pela minha perfídia;
Ontem na batalha estava esgotado
E hoje na guerra dizimo sua vida;

Ontem curvei-me para sua coroa
E hoje ergo em seu coração meu punhal;
Ontem seu império estava na boa
E hoje o coringa em seu jogo é o seu mal.

Vamos dar as cartas, mas jogo sujo.
Nesse duelo de espadas sou disfarce.
Quando sou descoberto eu sumo, eu fujo,
Mas antes lanço a morte na sua face.



COPAS

Vamos jogar, doentes da sociedade!
Não estou na moda, mas o estilo é meu.
Não caio na pilha da falsidade.
Se hoje eu perco, amanhã que rei sou eu?

Ontem fui um solitário no amor
E hoje sou casado com minha musa;
Ontem era amarga em seu vil torpor
E hoje deseja o artista que lhe acusa;

Ontem chorei demais por sua atenção
E hoje estou sorrindo com sua desgraça;
Ontem me humilhei por seu coração
E hoje piso em sua derrota sem graça;

Ontem fui abandonado na rua
E hoje abandono quem me abandonou;
Ontem minha fome foi culpa sua
E hoje o meu perdão cortês acabou;

Ontem fui pela inveja assassinado
E hoje os invejosos venho matar;
Ontem, por ser livre, não fui amado
E hoje amo a dor que vem lhes torturar.

Vamos dar as cartas, mas jogo sujo.
No amor prefiro minha amada Morte.
Quando sou descoberto eu sumo, eu fujo,
Mas volto, pois no jogo tenho sorte.



OUROS
Vamos jogar, doentes da sociedade!
Não estou na moda, mas o estilo é meu.
Não caio na pilha da falsidade.
Se hoje eu perco, amanhã que rei sou eu?

Ontem era bandido atrás de esmola
E hoje não preciso de canivetes;
Ontem não era popular na escola
E hoje brilho famoso nas manchetes;

Ontem fui pobre e fui menosprezado
E hoje sou rico e o crítico desprezo;
Ontem ninguém me ouvia, sofri calado,  
E hoje sou notícia, cresço e apareço;  

Ontem não tinha mulher que me amasse
E hoje qualquer mulher dorme comigo;
Ontem só aplaudiam quem me criticasse
E hoje a platéia assiste seu castigo;

Ontem suportei lições de moral
E hoje eu desprezo a sua vil petulância;
Ontem no lixo urbano passei mal
E hoje tenho de vigor abundância.

Vamos dar as cartas, mas jogo sujo.
Só apareço para lhe incomodar.
Quando sou descoberto eu sumo, eu fujo,
Mas volto para os seus ouros roubar!






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Crônicas soturnas - 14


Quando tudo começa a ficar mais branco, tendo como pano de fundo um mundo que nada nos trará, percebemos o vazio que assola-nos a alma.
É como se tudo fosse uma enorme esfera sem sentido. Um arco no tempo que nada abraçará. Nem mesmo o mundo.
E eu, nesse dilema da relidade, pareço um estranho.
Não que eu viva de extremos insignificados. Tenho muitos sonhos para livrar-me disso.
O problema é outro. Estou me desfazendo em pequenos pedaços. Desintegrando como peça de barro que solta areia ao vento.
A dor é passageira? Acho que não. Ela permanece, e por mais que lutemos contra ela a sensação de vazio sempre retorna.
Esqueci minhas anotações em algum lugar empoeirado (nem lembro mais onde), e meus sonhos não estão tendo a devida atenção que merecem.
Pela primeira vez ando desacreditado da vida.
Outros discordarão, já que em meus pensamentos a vida nunca valeu a pena mesmo, mas é justamente o contrário. Quanto mais acreditamos na vida tal como ela se apresenta nas regras, na religião e no sistema, mais deixamos de viver.
Os sonhos não estão nas leis, nas igrejas ou no trabalho. Eles são frutos de nossa liberdade, que por sua vez só é conquistada quando temos um sentido para continuar vivendo, uma razão que nos guie para uma espiritualidade livre dessas correntes que nos prendem à sociedade.
Hoje não há muito o que dizer.
De frente para a TV, banalidades e tragédias empobrecem meu espírito.
Se você, caro leitor, tem algum amor por sua vida, desligue essa TV e vá ser livre. O mundo está cheio de imbecis porque são poucas as pessoas que lutam contra aquilo que as desarmam.
Mas vá logo, leitor, antes que seu sofá fique cheio de "teias de opiniões triviais", e seu corpo sucumba à escravidão de uma rotina tristemente necessária.
Vá logo, porque os risos dessas propagandas são encenados. A moral dos fatos apresentados não é algo que todos querem seguir. E todos querem que você continue aí, sentado, tal como eu, para que este enorme cemitério possa sempre ter-nos por perto, como anjos-da-guarda tristes que irão velar todos os mortos de nossas falsas vidas.
Vá logo. E eu continuo aqui. Porque enquanto houver a cor preta que escreve estes delírios sobre o branco de uma tela, enquanto houver "papel e lápis", sonharei.
E você? Sonhou até quando? Lembra-se do dia em que morreu?
Então ressuscite!


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Crônicas soturnas - 13


Passou-se muito tempo desde minha última lamentação para os sete ventos do esquecimento. Então, aqui retorno com mais uma escritura soturna.

Depois de uma noite entregue à bebida e às lamentações da vida, quando a vontade era morrer para não ter mais que encarar as dores do mundo, venho com mais frases de reflexão e loucura para os que não estão mais entre nós. Porque é escrevendo para os mortos que você encontra compreensão. São poucos os vivos que compreendem o que vem do outro lado com seus significados simbólicos e ocultos.

O momento é de ressaca. Lá fora chove. E meu chá está frio porque qualquer coisa quente tira minha conexão com a chuva. E é com sua natureza cheia de energia que agora escrevo, olhando pela janela essas ruas repletas de pessoas guiadas por suas vidas de aparências, hipocrisia e ignorância.

Pois bem, com todo esse clima venho agora relatar o que aconteceu comigo dias atrás...


Eu vinha caminhando meio sem rumo pela cidade quando de repente deparei-me com algo inusitado. Encostado na parede, um garoto de cabelos encaracolados, parecendo um anjo, tocava uma harpa com uma habilidade fora do comum.

Mesmo eu tendo uma vontade enorme em desaparecer para tudo e para todos, ele continuava me dando uma lição de vida, como se eu devesse permanecer neste mundo pelo simples dever de por aqui continuar a vagar e consequentemente aprender.

As pessoas passavam por ele e não paravam para ouvir. Ele tinha um pano estendido no chão para receber as esmolas. Mas ninguém parava.

Eu queria entender o motivo para tanta indiferença. Então parei e prestei atenção em sua música. Era uma harpa de tamanho médio e ornamentada com detalhes dourados. E para minha surpresa eu descubro, dias depois, que o garoto aprendeu sozinho a tocar aquele objeto fora do comum. Era a única coisa que ele possuía. Seu único brinquedo e passatempo.

Sua música transportou-me para um mundo que a maioria prefere ignorar, e talvez por isso ninguém ali parava...

As TVs nas vitrines das lojas mostravam um mundo de comércios sem fim, obrigando as pessoas a serem escravas de seu próprio consumismo. Mas o garoto ignorava o que não podia ter, e nem queria porque sua harpa era tudo o que lhe bastava para continuar vivendo.

Mulheres caminhavam ao redor mostrando a moda das roupas bonitas e sensuais naquele dia quente. Como putas, mostravam o corpo ideal que deve ser aceito pelos costumes da ideologia contemporânea, onde tudo deve ser belo e atraente para os olhos de uma sociedade preconceituosa. Mas o garoto, com suas roupas surradas e simples, ignorava qualquer obscenidade e continuava tocando sua harpa, mesmo sendo uma triste canção.

As pessoas nos bares ali perto, consumindo cerveja e cigarros como trogloditas de uma porca humanidade, falavam de violência e corrupção. Tudo o que elas tinham que aceitar porque não eram capazes de fazer nada para mudar suas vidas para melhor. Mas o garoto, indiferente a tudo isso, continuava tocando sua harpa, porque sua canção era tudo o que bastava para tornar o mundo melhor.

Homens “felizes” caminhavam com pressa sem notar o garoto. E eu a tudo isso observava, como se estivesse no mundo do garoto e o mundo dos homens fosse algo a ser testemunhado por meus olhos incrédulos. Seus horários pré-definidos de homens sem tempo para nada, seus carros elegantes de homens presos ao materialismo cujo vazio é a lei que predomina, seus passos de pessoas mortas... Mortos iludidos por leis democráticas que os faziam pensar que eram livres, quando na verdade caminhavam apenas para cumprir aquilo que o sistema determinava, como escravos de uma época triste. Mesmo assim, diziam-se felizes. Porque o sistema também os obrigava a acreditarem nessa ilusão. Mas o garoto, que não podia ser controlado, permanecia isolado dos outros, sozinho, tocando sua canção, mesmo sendo uma canção triste.

E eu, percebendo aquela terrível realidade, tentava segurar as lágrimas. E chegava à conclusão que talvez fosse por isso que ninguém ali parava, porque o garoto era aquele tipo de marginal que jogava na cara das pessoas o quanto elas eram decadentes. E ele, bom, ele apenas era um artista, uma espécie de anjo que ali estava para tocar canções dificílimas, como um gênio que já tinha tudo para ser feliz, apenas com sua harpa, mesmo sendo canções tristes.


* * * 

A polícia chegou.

Queriam saber onde e como ele conseguiu um objeto tão caro.

O garoto não respondia às perguntas. Permanecia tocando.

Julgaram-no como sendo um pivete, um bandido, um garoto de rua. E tentaram pegar a harpa à força, mas o garoto não queria entregar seu bem mais precioso. Ninguém podia tocar em sua harpa, porque aquilo era sua alma.

Então bateram. Bateram muito. Espancaram o garoto até o sangue escorrer e ele largar a harpa. Tentei impedir, mas eu também fui obrigado a ouvir ameaças e insultos de homens da lei.

Foram embora e deixaram o garoto largado na calçada sem sua harpa. Seu olhar desesperançado e cheio de lágrimas agora mostrava uma alma morta. DIFICÍLIMO DE ENCARAR!

A desesperança foi a última coisa que senti espalhando-se naquele ambiente, antes do garoto voar com suas asas de anjo para o céu.


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O morcego na lama



―A Consciência Humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, à noite, ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto!

(Augusto dos Anjos)  






Certa noite, um grupo de garotos brincava num parque próximo a uma plantação de bananeiras. A brincadeira consistia em  ficar  balançando,  na  posição  vertical,  um  pedaço  grande  de
bambu, de forma que pudesse ser ouvido o som produzido pelo objeto,  semelhante  a  um  uivo,  ou  mesmo  o  som  do  vento assobiando.  Dessa  forma,  eles  atraíam  os  morcegos  que  toda
noite voavam em volta das bananeiras à procura de alimento.

Quando  os  morcegos  passavam  próximos  ao  bambu, que  girava  bastante  veloz,  levavam  uma  pancada  tão  forte  que caíam a vários metros de distância, vítimas de uma queda fatal.
Um desses morcegos teve um azar maior ainda de cair no meio de uma grande poça de lama.
Ficou todo soterrado de lama, com exceção da cabeça, que ficou virada para cima, olhando a lua e o céu estrelado.


Suas asas cobertas de lama ficaram tão pesadas que seu esforço em erguê-las era inútil. A lama, para o morcego, parecia argila.  E  em  sua  aparente  ignorância  de  não  entender  o  que
estava acontecendo, sua cabeça girava com as estrelas, tamanho foi o impacto do bambu (na cabeça!) que o deixou mais próximo dos astros.

O  morcego  queria  dizer  aos  garotos  que  aquela ignorância  humana  tinha  muito  o  que  aprender  com  a  filosofia dos mamíferos voadores hematófagos.

Ele  queria  dizer  que  sua  capacidade  em  guiar-se  no escuro;  em  sobreviver;  em  se  alimentar;  em  voar  em  silêncio; em  viver  em  grupos;  tudo  isso  tinha  uma  complexidade
científica de difícil entendimento para a humanidade.

Além  disso,  toda  a  sua  pele;  toda  a  sua  carne;  todo  o seu sangue; todos os seus ossos; todos os seus átomos; tudo isso era  relativo.  O  que  o  morcego  tinha  o  próprio  homem  também
herdou das origens!

O morcego queria explicar tudo isso aos homens, mas ele  vivia  num  mundo  onde  seu  único  diálogo  era  o  silêncio  e  a escuridão.

De  repente,  o  morcego  viu-se  rodeado  de  átomos arrumados  e  organizados  de  forma  diferente  da  sua.  Eram  os mesmos  átomos  que  ele,  com  sua  cabeça  levantada,  via  nas estrelas e na lua, mas não tão longe nem tão complexos.

Esses átomos estavam ao seu redor, cobrindo seu corpo putrefato,  devorando  sua  cabeça.  Eram  vermes  que  vinham  da lama  para  devorá-lo.  E  essa  lama  cheia  de  podridão  e  vermes parecia  uma  massa  viva,  parecia  um  vômito  que  ganhou consistência; parecia a origem do mundo! E em vão o morcego tentava se levantar. Afundava cada vez mais em seu malogro. A noite passava e o  morcego continuava afundando, olhando para as  estrelas  e  tendo  seu  corpo  putrefato  sendo  puxado  cada  vez mais para baixo pelos vermes, pela lama viva!

O crepúsculo se aproximava. O morcego ia ver o sol! E para  aquele  a  quem  chamam  de  Deus  o  morcego  queria  gritar mil blasfêmias.

O  sol,  a  lama,  os  vermes,  o  bambu,  os  garotos;  tudo isso  para  o  morcego  era  Deus.  E  em  tudo  isso  estava  Deus, comendo  suas  entranhas,  misturando-se  com  o  seu  sangue  e fazendo parte de sua decrepitude.

O  morcego  queria  dizer  tudo  isso  aos  homens,  queria dizer que não acreditava no Deus deles, que existia um maldito Deus maior, um maldito nada que preenchia com átomos o seu próprio vazio.

O sol desponta no horizonte. O morcego quer gritar todo o seu ódio para com Deus e a humanidade. Ele quer provar que também pode ter cérebro e que a razão sofre contínuas metamorfoses.

Já é meio-dia. O morcego percebe que vai morrer. Mas também  percebe  que  a  morte  não  existe,  que  tudo  apenas  se transforma.

Como o morcego queria que o sol queimasse logo sua cabeça cheia de vermes! Queimando os vampiros da existência, sua liberdade é garantida no fogo de seu ódio. E percebendo que vai  afundar  de  vez,  num  último  adeus  ao  mundo,  o  morcego queria gritar. Mas ele vivia num mundo onde seu único diálogo era o silêncio e a escuridão.

O morcego afunda. Sorumbático. Morre...

O morcego... O morcego...

A  alma  do  morcego  agora  voa  sobre  a  humanidade.

Testemunhando  um  mundo  de  monstros,  o  morcego  vê  a humanidade banhada no sangue dos sofrimentos. Tudo ao redor é alimento. Tudo ao redor é a alma da natureza manipulando os homens  num  caminho  escabroso.  Tudo  ao  redor  é  nada.  E  a alma  do  morcego  percebe  que  Deus  não  existe,  que  nada  é sagrado.  O  mundo  está  vivo  e  parece  uma  lama,  que  se transforma.

A alma do morcego vê que as criações  não passam de transformações.  Tudo  já  existia  numa  química  assombrosa;  as idéias  já  conspiravam  numa  matemática  oculta;  os  sentimentos já se expressavam nas imagens das almas dos organismos!

E  vendo  que  a  realidade  podia  ser  modificada,  a  alma do morcego idealizou sua fantasia:
É dia. A alma do morcego – imensa! – ganha forma no entenebrecimento da nódoa de sua matéria.

Taciturno,  o  morcego  voa  sobre  a  humanidade.  E  sua sombra,  por  onde  passa,  vai  deixando  um  rastro  de  morte  e desolação.  E  desse  rastro  vai  se  formando  uma  grande  lama, uma  grande  gosma,  uma  grande  massa  misturada  com  o  fel  da humanidade.  E  dessa  lama,  dessa  gosma,  dessa  massa,  o morcego manipula sua ressurreição...

...

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Sangrento presente

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Surgir de um Desejo...

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Proíbam a leitura! (Por Gustavo Magnani)

Encontrei na Internet uma maravilha de post, e gostaria de compartihar com meus leitores.
O Post é de autoria de Gustavo Magnani
E foi postado em seu blog: http://literatortura.wordpress.com

Parabéns Gustavo!

Proíbam a leitura!

Já não aguento mais esse povinho recluso; povinho cheio de exigências. Como se tivessem nascido com direito algum na vida. Não suporto essas indagações e labirintos que fazem com a mente. Dão uma volta aqui, outra acolá e quando você percebe; pufti. Te fizeram cair na incoerência.

Ora bolas, não podem ser como todos? Sentar no sofá, comer pipoca e aplaudir? Esse povo que tem apego à leitura é uma laia de desocupados. Ao não ter o que fazer, leem um livro e entoam aquelas palavras dentro de si como se fosse música. Se não bastasse, passam a sussurrar suas ideias nos recantos silenciosos. Tentam de toda maneira envenenar o bom cidadão. O trabalhador. Aquele que chega em casa cansado e só quer ligar a televisão para ter um bom tempo ali. Vidrado no entretenimento.

Mas o grupo de vagabundos, sim, vagabundos, querem que o cansado homem perca seu tempo embarcando nas páginas de um livro mal escrito. Ora bolas, desde quando ler é prazer? Ler é venenoso, senhores. Como eu posso saber, perguntam vocês. Ora ora… já estive do outro lado.

Não precisam abrir a boca e arregalar os olhos. Consegui me curar. Sim, consegui e estou aqui testemunhando, senhores. Quando você cai nessa perdição, o simples tem mais beleza. Tudo fica mais bonito. Sim, admito. Mas é como uma droga; primeiro ela te ilude e mostra o lado bom. E depois? Ao perceber que está viciado em palavras, você já nota coisas ruins. Aquele tão sagrado programa de domingo a tarde começa a perder a graça. A ignorância te incomoda. O político que você votou já não merece seu voto. Ora bolas, a leitura diz que você mesmo está errado! Onde já se viu? Ela aponta na sua cara e grita! A leitura não tem educação. Ela sugere que tudo precisa ser revisto. Que não vivemos como poderíamos viver. Ora… deixem-me recuperar o fôlego.  Não é fácil lembrar um momento tão tenebroso. A leitura cospe na sua cara e te deixa cego! E tenho dito, senhoras e senhores.

Aqui está a petição que deve ser assinada para, enfim, proibirmos a leitura.
Abaixo uma lista de 10 coisas que a leitura já causou contra a humanidade. Eu poderia ter feito até 1.000, ora bolas!

1-      Gerou violência – uma mulher agrediu a bolsadas o escritor Arthur Conan Doyle por ter matado Sherlock Holmes.
2-      Gerou alcoolismo – Grandes escritores, que obviamente são grandes leitores, eram alcoólatras.
3-      Gerou dúvidas matrimoniais – Até hoje desconfio se fui traído pela minha mulher ou não, senhores.
4-      Gerou saudade da infância – onde já se viu? Um menino que nunca cresce? E voa?
5-      Gerou amores proibidos – duas famílias rivais, senhores!
6-      Gerou roubos – Quantas ideias foram dadas nesses livros policiais?
7-      Gerou loucura – Dialogar com um corvo? Atravessar um guarda-roupa?
8-      Gerou infelicidade – Como querer viver depois de conhecer a Terra Média? Ou Hogwarts?
9-      Gerou medo – vampiros, lobisomens, monstros, ser humano, demônios.
10-   Gerou Pensamento – Onde já se viu? Pessoas tendo suas vidas controladas? Vigiadas?

SE VOCÊ CONCORDA QUE A LEITURA DEVE SER PROIBIDA, ESCREVA SEU NOME E O NOME DO LIVRO QUE TE FEZ PERDER A NOÇÃO DE REALIDADE.

X Gustavo Henrique Magnani Ferreira        –        1984, George Orwell.

.a literatura mata.


 

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Para começar o ano inspirado!












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Crônicas soturnas - 12

Não interessa sua felicidade!
Será que você não entende?

Eu gosto da minha alma em chamas;
Da lágrima dos meus olhos;
Do coração batendo em dor;
Deixe-me em paz com minha melancolia...

Não adianta tentar me envolver com seu vazio. Essa vida de cores, alegria e comemorações que sempre acabam na expectativa desesperadora do que virá no dia seguinte.
Seu dinheiro nunca será o suficiente e você vem tentar me convencer de que devo seguir o mesmo caminho?
Com que objetivo? Ser escravo de suas próprias convicções infinitas de que o dia de amanhã será melhor?

Não interessa sua felicidade!
Será que você não entende?

Eu gosto da minha alma em chamas;
Da lágrima dos meus olhos;
Do coração batendo em dor;
Deixe-me em paz com minha melancolia...

Nada do que você faz vale a pena. E você quer que eu faça o mesmo?
Sua alegria disfarçada, suas palavras fabricadas pela opinião comum do dia-a-dia da sociedade, sua moda!
Você tenta me empurrar coisas fúteis, e eu já estou farto de tanta futilidade!
Olhe ao redor! Veja quantas pessoas iludidas sorrindo! Todas buscam o mesmo ideal, que é esse vazio de querer sempre seguir a opinião comum de todos que os cercam. E todas pensam que estão realizadas. Por quanto tempo?
Eu estou aqui satisfeito com as vozes divinas que preenchem meu coração. Vozes essas da noite, do luar, da poesia, do vinho, das sombras, da solidão...

Não interessa sua felicidade!
Será que você não entende?

Eu gosto da minha alma em chamas;
Da lágrima dos meus olhos;
Do coração batendo em dor;
Deixe-me em paz com minha melancolia...

Pelos séculos eu sinto o chamado dos deuses da noite, das rainhas da magia. E isso é Deus pulsando em meu coração. É o Diabo tornando viva minha alma.
Todas as suas crenças, por milhares que sejam, com todos os seus sorrisos, não podem calar as vozes dos deuses que atendem nossas preces pelos séculos.
Não me peça para falar em Deus, não me peça para seguir uma religião, não me peça para fazer a escolha certa!
Eu vou caminhando pelas minhas estradas cheias de curvas porque nada pode ser reto, nada pode ser certo, nada jamais será certo.
E se você é feliz e eu não, e daí?

Não interessa sua felicidade!
Será que você não entende?

Eu gosto da minha alma em chamas;
Da lágrima dos meus olhos;
Do coração batendo em dor;
Deixe-me em paz com minha melancolia...

O que sua felicidade vai trazer de tão glorioso e bom que eu já não tenha com minha melancolia?
O carnaval de suas ideias tentou jogar confetes em minhas ruas de cores negras;
Seus gritos desesperadores tentaram me convencer do quanto você é feliz com uma vitória;
Você tentou me vestir com suas roupas coloridas...
Mas em minha alma brilha o oposto do que você é na luz, e por isso mesmo eu jamais deixarei de estar satisfeito comigo mesmo, com o que eu sou. Jamais deixarei de cantar minhas crônicas soturnas.

Não interessa sua felicidade!
Será que você não entende?

Eu gosto da minha alma em chamas;
Da lágrima dos meus olhos;
Do coração batendo em dor;
Deixe-me em paz com minha melancolia...

Alegria! Tenha piedade dessas almas que bebem de sua fonte, viciando-se cada vez mais nessa busca por ilusões.
Ouça minha oração, porque peço que me deixe em paz! Peço que me deixe apenas com a verdade, com a experiência, com a dor que vai me ensinar a caminhar ao lado dos deuses que verdadeiramente atendem nossas preces pelos séculos.
Ouça, alegria! Eu não acredito em você! Suas ilusões não me atingem. Por isso, não venha tentar me convencer de que posso aproveitar algo que seja útil com você. Tudo que vem de você, alegria, é fútil. Fútil! FÚTIL!

Não interessa sua felicidade!
Será que você não entende?

Eu gosto da minha alma em chamas;
Da lágrima dos meus olhos;
Do coração batendo em dor;
Deixe-me em paz com minha melancolia...
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Por dentro





Eu quero um poema soturno,
Mais lindo e mais imundo,
Que o mundo
Macilento e taciturno
Embebido de prazer noturno
Mais sujo e mais profundo,
Que o mundo.
Eu quero um poema soluçado,
Que incomode como um dedo,
Cortado,
Que escorra e inunde
O mundo, imundo, profundo
Que como o sangue, unge,
Um coração desfacelado, redundo.

Eu quero um poema antídoto
Que expele a mácula da tristeza
E conserva a beleza, ilesa.
Um poema sórdido
Um poema mórbido
Que me faça vigília na morte,
E nunca se despeça na ida
E que me prive da sorte
De finar-me em vida.


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Neste fim de ano leia um bom livro


ANJO VADIO (poesia) - Os poemas desta obra falam sobre amor e sombras, sentimentos ardentes e sedução, onde inovação e ousadia são as palavras certas para definir o que sua arte por vezes apresenta: dominação, submissão e sexo! Versos que, em sua maioria rimados, foram construídos com o encanto de uma sensualidade noturna, dando um aspecto sublime à poesia de Sr. Arcano, um autor que trabalha suas ideias cercado por um ambiente de mistérios e encantos, como um artesão das sombras dando vida às suas escrituras de beleza e magia.


OS CONTOS PROIBIDOS DO SR. ARCANO (contos) -
Leitor, seja bem-vindo ao mundo proibido de Sr. Arcano, cujos contos narram fatos e acontecimentos que vão do fantástico ao terror, da loucura ao horror e do polêmico ao absurdo.
Aqui o autor o convida a viajar aos subterrâneos sombrios de sua mente, onde o leitor poderá se perder em fascínio ou ficar paralisado de medo. Mesclando fantasia e realidade, o escritor oferece seu breve cardápio, à primeira vista atraente, mas que, com uma melhor apreciação, fará o leitor perder-se nas páginas de seu livro proibido, provando um gole de uma saborosa taça de veneno a cada conto.
Os contos proibidos do Sr. Arcano reúne vinte contos de terror, mistério, loucura e fantasia. Um livro que abre as portas do absurdo e fantástico, e ao mesmo tempo real, em que você, leitor, estará no meio de todo esse cenário, como um visitante explorando locais proibidos e sombrios.


O MISTÉRIO DE HENRI BLOT (romance) -
Em 1886 um homem chamado Henri Blot escandalizou a França ao tentar defender-se em seu julgamento por profanação. Com bastante naturalidade, ele disse que não poderia viver sem alimentar-se de sangue. Foi condenado a dois anos de prisão, depois de ter sido provado que Blot violou túmulos de jovens mulheres, praticando necrofilia e bebendo o sangue das mortas. Na época, o condenado estava com 26 anos e depois de muitos rumores a seu respeito, sumiu misteriosamente e nunca mais foi encontrado.
Cem anos depois o Convento das Irmãs do Sul recebe uma visita assustadora à noite. Atraído pelos livros da escritora Madre Clarisse, que publicou vários estudos sobre demonologia e mitos vampíricos para a Igreja, um vampiro procura a freira para revelar a ela um segredo terrível, trazendo lembranças de um passado recente e macabro que fazia a cristã ter, todas as noites, pesadelos com o terrível Henri Blot.


SETE SOMBRAS E UMA VELA (poesia) - Tristeza, pesadelos e sonhos, pessimismo, degradação, loucura, morte e mistério são os temas deste livro. Demorou anos para que todos os poemas fossem aqui reunidos. Portanto, a publicação deste livro é uma das mais importantes da minha vida que, relacionada com a literatura, teve início aos quatorze anos, quando escrevi meu primeiro poema: “Noite má”, publicado nesta obra. E hoje, com meus 30 anos revelo: SETE SOMBRAS E UMA VELA é uma espécie de despedida de uma fase poética. Não que eu mude de estilo, mas sim porque meus versos ganharam um novo refinamento. Quando se faz poesia, aprende-se com a prática uma evolução criativa cujo desenvolvimento torna-se cada vez mais abrangente. E eu aprendi que essa é uma área sem escola — você estuda sozinho com suas próprias experiências e faz dela a sua profissão. Tendo-se, a partir daí, o que as pessoas chamam de dom.
Quando me refiro à minha relação com a literatura, falo de forma apaixonada como um devoto para com sua religião. Não basta envolver-se com a narração, temos que praticar o artesanato das palavras. Por isso, que me perdoem os romancistas, mas sem poesia não há literatura. E a minha literatura é, sob um nível pessoal, soturna como a vida a mim se apresenta. Não por regra, mas sim por escolha e experiência.
(Sr. Arcano)

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Scarlet

Em homenagem aos meus leitores do passado, que conheceram um lado oculto de meus escritos sendo transbordado em taças de sangue, e dor.
Texto dedicado a uma pessoa misteriosa...


Scarlet... tomastes meu inferno como sendo teu. Absorvestes na alma a minha tortuosa solidão.
Os objetos do passado repousam no meu lar que serve como prisão para minha existência. Suas tonalidades rubras são apenas simples marcas de um passado que não voltará.

Sem mais nada para ocupar o espaço de minha existência, sou obrigado a conviver com minha solidão. Fui condenado a vagar nas esperanças de meu mundo de ilusões, deixando o tempo levar os adornos do meu passado, como folhas secas e mortas quando chega o outono.

Antes fosse o cigarro do maço vermelho que me deixastes, do que outra causa desprezível incendiando nosso espaço repleto de sonhos. Silenciando as notas apaixonadas de nossa união, como ecos espectrais sendo paridos de nosso piano vermelho. “Soluços ao luar, choros ao vento... tristes perfis, os mais vagos contornos. Bocas murmurejantes de lamentos”...

A dor de meus lamentos é tão grande que até um surdo pode ouvir.

Agora as notas são todas uníssonas, a canção emitida pelas teclas é uma voz calma e quase tão profunda quanto o meu coração, e é ela que vai ao encontro de sua voz arquejante, e nunca foi o contrário...

As rosas vermelhas estão murchas no vaso, o ar aqui é irrespirável...

Nossos sonhos morreram e teu incomparável rosto é uma lembrança fragmentada no limbo dos jardins da morte, onde o cheiro funesto é insuportável.

Encontrei a pouco teu batom vermelho embaixo da cama, e como qualquer lembrança tua é algo que mata-me por dentro, tentei, inúmeras vezes, me aconselhar usando-o para escrever no espelho que era preciso que fosses consumida também pelas chamas. Porque em nossos nomes somos imortais e nenhuma cruz será capaz de pôr um fim em nossa existência.

E minha amada Scarlet, no dia em que me despedi de ti, eu realmente estava querendo te dizer que eu estava indo morrer. Não me pergunte como (conheces-me muito bem), mas eu já sabia que eu iria me consumir no fogo mortal da paixão. Na noite em que fui embora (conhecer a morte) esbarrei numa mulher que eu procurava há tempos. Uma mulher muito especial que guarda na alma poderes rubros e ardentes. Não me lembro realmente de nada, a última coisa que vi foi seu cabelo, acho que era...

                                                                 VERMELHO!

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Crônicas soturnas - 11

Os óculos de um homem morto




Eu achei os óculos de um homem morto.

Foi assim: Eu caminhava pelo Rio de Janeiro, e avistei os óculos de um homem morto. Ele estava no chão, com as lentes quebradas e sujo. É antigo mas não havia poeira. É de um homem morto mas não tinha sangue.

O dono desses óculos foi poeta. Quem sabe o que ele escreveu? Quem sabe o que ele sentiu? Neste mundo moderno cheio de máquinas e relacionamentos virtuais, não existe máquina alguma capaz de expressar o que esse homem um dia foi capaz de expressar! Nenhuma máquina no mundo é capaz de sentir o que ele sentiu, muito menos traduzir em palavras esses infinitos sentimentos.

O dia estava nublado. Não havia muita esperança nos olhos do mundo, mas quanta bondade e sofrimento nos olhos de quem passava por ele! E mesmo assim, indiferentes, pisavam no objeto sem saber a quem ele um dia pertenceu.

Cada pessoa que por ele passou viveu uma história sofrida e profunda, mas nenhuma seria capaz de expressar como esse homem morto era capaz, todo o sofrimento de suas vidas!

Quem sabe quantos versos esse homem escreveu? Quem sabe quantas emoções ele viveu? Quem sabe quantas histórias de vida impressionantes ele testemunhou? E quantos livros ele leu? Quantas lágrimas os olhos por trás de sua armação de metal derramaram?  Ninguém jamais poderá saber!

E no entanto, todos que por ali passavam seriam capazes de entender esse homem morto. Isso porque, como está acontecendo nesse momento com todos os passantes, também havia uma pedra em seu caminho. A diferença é que a pedra no caminho desses passantes é muito, muito maior.

Enquanto esse homem morto virou estátua que armazena as fezes dos pombos em sua cabeça, as pessoas que não o conheceram, muitas delas (e a maioria), são desprovidas de uma educação de respeito. E infelizmente não podem nem mesmo ler os versos desse homem morto. Elas não precisam de óculos, elas nem mesmo sabem ler. São bondosas, querem aprender, mas não há chances nesta terra de pobres explorados por máfias políticas.
Eu achei os óculos de um homem morto. Os tempos mudaram. E parece que esse homem não terá mais significado além de uma mera estátua.

Há ruínas em nossas terras: os livros perderam seu significado, as pessoas parecem zumbis seguindo propagandas, e óculos antigos e quebrados são abandonados pelas ruas.

(Sr. Arcano)

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Carpe Noctem!

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Idolatria das Sombras

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Matéria sobre o livro "Sete sombras e uma vela" publicada na fanzine "The funeral of tears"


Meus agradecimentos ao editor da "Funeral of Tears", pela publicação da matéria sobre o livro "SETE SOMBRAS e uma vela", de minha autoria.
Na divulgação de uma página inteira da revista, a matéria foi completada com o poema "Mar tenebroso", que faz parte dessa obra de poesia sombria e obscura.
Abaixo, cópia da matéria, na página ao lado direito.





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Crônicas soturnas - 10



Meu mundo não é o seu e este em que você vive não foi feito para mim. Em meus sonhos acordo para a realidade que você nega o tempo todo, como uma máquina programada para não acreditar no que está além.

Meu mundo não é o seu. Não, não é.

Estou dormindo, por isso estou acordado. Em meus sonhos vivo minha realidade. E você... se está lendo isto,  não está dormindo. Mas também não pode acordar de onde está.

Dentro de mim sou o que sou e nada vai mudar isso. Neste mundo de sonhos e ilusões assombro a sepultura que é sua vida. Estou vivo, e você está morto.

Vagando pela cidade escura vejo a neblina noturna cobrindo as paredes imundas de uma arquitetura corrupta.

Não adianta... por mais que você construa instituições de lucro nunca vai conseguir ser livre. São prisões que você constrói.

E estou vagando entre os becos e vielas sujas nesta noite, assombrando tudo que é seu. Planejando a revolução que trará o fim de tudo o que existe para você. Nas ruas, você não tem chance.

Minha alma vaga com anseio de lhe ter possuído. Em minhas garras continuo ansiando por seu pescoço. Num desejo cada vez mais forte, cerro as mãos com toda a força do meu ódio.

O grito não sai porque com ele vem a ânsia de morder seu coração, dilacerar sua carne.

Até que... Acordo.

Não, não “acordo”. Acho que voltei a dormir. Dormir essa realidade que chamam de vida, onde centenas de mortos ao meu redor vagam à procura de um sentido para a vida.

Quando os mundos colidirem tentaremos nos desgarrar do que vivemos, mas entre vivos e mortos só os que não têm medo de se sentirem vivos estarão a salvo.

No alto do seu edifício minha alma dá gargalhadas enquanto meu corpo dorme.

(Sr. Arcano) 

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Crônicas soturnas - 9



Obrigado Deus... Obrigado pelas Trevas!

O adeus tardio veio depois de muitas trovoadas... a cada frase dita um novo clarão iluminava as flores murchas do meu jardim devastado. Escondidas sob as sombras do meu pesar, suas pétalas sem cor repousavam sobre a terra lodosa.

Foi tudo tão tardio... E eu aqui, tentando achar uma resposta para o que não é justo nem nunca será, percebo neste momento que não há respostas para o vazio. Quando a alma carrega a agonia de não ter nada o que carregar só resta a tristeza, essa extrema tristeza de não ter o que se devia estar no lugar certo. Aqui, bem aqui, dentro de mim, não há vida.

Minha vida se foi...

Sorrisos e roupas coloridas não vão expressar o que sou, porque aqui dentro, bem dentro do meu ser, tudo é escuro e triste.

Minha cara amante trevosa... você que lê e acompanha minhas crônicas. Esses tristes textos de lamentações. Sabe o que estou fazendo agora? Estou tentando suportar minhas dores físicas. Por todo o corpo sinto inchaços e um cansaço terrível me assombra.

A realidade é terrível, minha querida amante trevosa. Eu não pertenço a este mundo.
E você me pergunta: “Então, por que foi morar nele?”.

— Eu não sei! Eu não sei!


Você já viu um anjo das sombras caindo no mundo da luz? Se cair não é a palavra certa, eu a defino dessa maneira. Porque este mundo de luz é sujo demais! Falso demais! Horroroso demais! Tudo aqui é uma tortura, uma escravidão!

Neste momento estou olhando para meu chapéu, luvas, maquiagem e demais vestes... Tudo sobre a cama empoeirada. O bufão soturno me convida para voltar. Eu quero voltar. Minha alma é aquele bufão. E eu, aqui, neste mundo de aparências e degradação, sinto apenas um vazio enorme no coração. Estou sem alma.
E todas essas ilusões e pesadelos que vislumbro à noite, todos esses devaneios psicodélicos, tudo, enfim, tudo vem dessa minha tristeza.

Posso até ser louco (e gostar disso), mas não é a loucura. É a tristeza que me consome de ilusões...
É dela que me alimento. Nas trevas eu me sinto bem. Portanto, esteja pronta para me receber se um dia eu abandonar tudo e voltar para o que sou. Para meu lugar, longe dessa alegria hipócrita que enfeita o sorriso dos que não encontraram nada para preencher seus vazios.

(Sr. Arcano)

      

Minha foto
O ano é 2010. Entre os literatos circula a notícia de que um jovem, usando o pseudônimo Sr. Arcano, tem seus textos descobertos e publicados por uma editora que o descobriu por acaso depois de analisar um livro estranho chamado Os contos proibidos do Sr. Arcano, perdido entre várias obras que aguardavam publicação.
Os contos do jovem, escritos desde sua adolescência, são carregados de sentimentos sombrios e visões obscuras. E durante um bom tempo ele ficou conhecido como o soturno Sr. Arcano.
O jovem escritor aparecia em lançamentos muito furtivamente, e seu desaparecimento foi tão rápido quanto o seu surgimento. Há quem diga que o jovem não conseguia segurar por muito tempo sua máscara de pessoa normal e sorridente, retirando-se de volta para o seu esconderijo misterioso.
Descobriu-se que depois de certo tempo a loucura por trás de sua imaginação o consumiu de forma tão avassaladora, que quem o olhava percebia que mesmo com os olhos abertos ele sonhava, e o que era mais assustador: trabalhava em seus sonhos como se estivesse criando vida em seu mundo sombrio de ideias.


 * * *

Defini-lo de forma pessoal seria limitá-lo como sendo um soturno. Indivíduo que, numa alquimia da dor, extrai da realidade ao seu redor sua essência sombria, invisível para os indiferentes que preferem ignorar o Inferno em que vivem. Por outro lado, tal definição não é rígida em suas obras, mesclando fantasia e realidade em descrições surreais diante de acontecimentos mundanos.

Em seus poemas prefere os versos metrificados e rimados. Raras vezes adotou os versos livres, por lhe trazerem lembranças de um Modernismo assassino e barulhento, que interrompeu de forma drástica a essência do Simbolismo, este por sua vez lhe trazendo agradáveis momentos de silêncio e magia em seus estudos e leituras. Mas não é um simbolista, muito menos romântico ou modernista. Seu estilo ainda está para ser descoberto, e até que o classifiquem já estará morto, e este perfil biográfico será o que restou de sua tentativa (insana?) de tentar classificar a si mesmo.

Fez o curso secundário em um bairro chamado Ilha do Governador, já manifestando interesse por autores e obras obscuras. Porém, por uma questão econômica, não seguiu os estudos na área literária ou filosófica, preferindo formar-se em computação (2009), e continuar sua busca por novos conhecimentos de forma descompromissada, tanto na área tecnológica quanto na espiritual, filosófica e literária.

Em suas obras procura expressar a dor, a treva e o terror. Muitas vezes com traços de loucura, fruto de seus delírios devaneados em sua solidão. E até a conclusão desta auto-biografia (maio de 2010) não se preocupou em ser julgado louco. Prosseguiu seu caminho conversando com os mortos e com as sombras que o rodeiam...

* * *

Sr. Arcano é o pseudônimo do escritor e poeta Alexandre Souza. Suas obras classificam-se em gêneros como: terror, fantasia e mistério. Nascido em 1 de setembro de 1980, é brasileiro e um incansável viajante à procura de novos conhecimentos e experiências.

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